Trajetórias



 
TRAJETÓRIAS A BORDO DAS LINGUAGENS DO MEU SER



          De uns anos para cá dei de escrever. Comecei com alguns poemas, e aos poucos arrisquei alguns textos, esporadicamente.

          Minha primeira linguagem foi a música. Desde a infância foi minha grande paixão. Antes de poder estudar algum instrumento eu já tinha um universo sonoro na minha cabeça, onde uma orquestra imaginária tocava trechos de peças imaginárias, sem começo nem fim. Demorou para que eu pudesse ter acesso a um estudo formal em música, pois é algo que infelizmente nem todas as famílias podem oferecer aos filhos. Mas o meu dia chegou, e aos treze anos entrei de cabeça. Graças ao esforço dos meus pais, comecei a estudar piano num Conservatório Musical. Aos poucos fui adquirindo um gosto requintado. Música de verdade mesmo, só de Johann Sebastian Bach para cima, se é que poderia haver algo superior. Compus diversos hinos, mas não ousava escrever as letras. As palavras eram para mim um mistério.

          Minha segunda linguagem foi o silêncio. Silenciei por cerca de dez anos. Entrei em contato com um mundo de imagens, símbolos e expressões visuais. Um mundo que não necessita de sons, que não sabe distinguir uma melodia, não faz a mínima ideia do que seja uma harmonia e tem uma ideia um pouco difusa sobre o que seja um ritmo. Estudei a língua de sinais, a LIBRAS (língua brasileira de sinais) e mergulhei de cabeça neste universo, submersa nas águas profundas do mundo da surdez. No meu coração não havia espaço para as duas paixões, a música e os surdos. Depois de relutar por dois anos, entreguei a minha primeira paixão, o meu sonho de menina, e me rendi completamente ao silêncio.

          Foi no silêncio da minha alma que encontrei a minha terceira paixão, a paixão pelas letras. As letras que eu nunca conseguira escrever nasceram nos meus anos de solidão e de intensa luta interior. Não que eu me sentisse só, pois se há alguém neste mundo que não deixa você sozinho são os surdos. Eles batem na sua porta a qualquer hora do dia ou da noite. São extremamente sensíveis e necessitam desesperadamente de alguém que os ouça com os olhos do coração. Eu devo aos surdos o surgimento de mais esta paixão. Durante minha jornada com eles, como intérprete e serva, aprendi a traduzir alguns rudimentos da linguagem do coração humano, entrevendo algumas das suas mais profundas necessidades, dos seus gritos mais angustiantes calados no abismo da alma. Aprendi a juntar as peças do quebra-cabeça em desordem cronológica das histórias que me foram contadas (e foram tantas...) para tentar entender o que é que estava realmente acontecendo.

          Em dado momento senti que era hora de voltar. Voltei a tocar, voltei a estudar e a lecionar música. Apaixonei-me pela música popular, uma linguagem mais acessível e tão bonita quanto a música das salas de concerto. Os surdos me deselitizaram, me tornaram mais humana, mais gente, igual todo mundo. Eles me obrigaram a descer do pedestal e a andar no meio da multidão. As pessoas fazem milagres na vida da gente. Graças a Deus!

          Além disso, tudo o que escrevi está ancorado na minha comunidade, a Ibab (Igreja Batista de Água Branca). Foi nesse ambiente que nasceram as primeiras ideias e foram fomentadas minhas rebeliões interiores. Foi ouvindo gente como Ed René Kivitz e Ariovaldo Ramos que eu me vi forçada a abrir mão de muitos conceitos e pré conceitos. Quando cheguei com minha família na Ibab, há oito anos, sentia-me a cada domingo demolida por dentro. E Deus foi reconstruindo muita coisa. E muito há que se fazer ainda. E como... Portanto, tudo o que escrevo funde-se e confunde-se na comunidade e nas pessoas que Deus tem usado para virar o meu mundo de ponta cabeça.

          Organizei o que eu tinha escrito até então, na esperança de que pudesse vir a abençoar alguém. A príncipio elaborei um projeto para a publicação de um livro. Foi para mim tão prazeroso que já me senti recompensada, mesmo não tendo alcançado meu alvo inicial. Depois, conversando com o Marson Guedes, surgiu a ideia de um blog. Em todo esse processo, o carinho e a dedicação do Ottmar, meu marido, que além de todo o apoio sempre me dá um suporte técnico, o entusiasmo dos meus filhos, Raquel e Estevão, que tanto têm enriquecido a minha vida, têm sido para mim dádivas sem preço.

          E, já que falei em Bach, vou terminar este texto com a mesma expressão que ele colocava ao final de cada peça musical que ele compunha.

          Soli Deo Gloria.

Roselena Landenberger